cada dia tem seu tom
cada dor cabe a nós
a vida não cabe mais
do presente transborda
ao passo do tempo
para trás
Engatinhando em poesia. Engatilhando poemas, ou quase isso.
Improviso
Sem impor, sem aviso
Sem supor,
Sem pensar , sem pesar
O tropeço
Um novo passo
Renan Ramalho
02.12
“Este é efetivamente um problema: afinal, por que a verdade? Por que nos preocupamos com a verdade, aliás, mais do que conosco? E por que somente cuidamos de nós mesmos através da preocupação com a verdade?"M. Foucault
Tanta verdade
Quânticas certezas
tântricas verdades
O amor se por inteiro nunca dói
dói a permanente falta
por vezes se esquece a dor
saúde
meios amores lembram que existe amor inteiro
saudade
tantas meias verdades
todas cheirosas, saudáveis
me lembram que existe verdade inteira
Platão brinca com ela toda
Deus diz que é coisa séria
Por falar em paradigmas, andei pensando numas certas semelhanças não tão filosóficas... só pra descontrair:

Renan Ramalho04.02.10

Natal, 14.09.09
Renan Ramalho
da cor da estação
verde como a esperança
no outono, rubro apaixonado
depois cai
eu só vi cajueiro
mas vi esperança
vi paixão
cai e ralei o joelho
hera-de-inverno
cresce e toma conta
não cabe mais
escorre entre os poros
já não se esconde
são ramos
são frases
são punhais
hera-de-inverno na parede
é planta que cresce com
[apetite voraz
no formato
conforme a alma
escorre nos dedos
se mostra em versos
travessos
hera-de-inverno
era inquietude
virou poesia
Natal, 30.07.09
Renan Ramalho
Lembro de filmes em que o pai morre em uma cama quente e antiga, de entalhes trabalhados, segurando a mão de sua amada e rodeado de filhos enquanto recebe a extrema unção. Também lembro da morte de minha avó, na UTI de paredes brancas – não vi, mas assim imagino – em uma cama branca com fios por todos os lados, agulhas espetadas e uma enfermeira tentando salvá-la de seu mal, decorrente dos anos de cigarro, através de uma traqueostomia – pouparei-os de alguns detalhes que me foram revelados, embrulham o estômago, os curiosos perguntem.
Sinceramente, não tenho dúvidas que o primeiro quadro me agrada mais – ou me desagrada menos.
Hoje presentearei meus poucos leitores com um poema desagradável. Qualquer coisa leiam o poema anterior, ele é bem mais consolador e igualmente verdadeiro.
Renan Ramalho
17.o6.09
Gente estranha em leito frio
Gente fria em leito estranho
Agulha, soro lento e frio
Sopa, água e leite frio
Soro, maca eletrodo e fio
Pulso fraco, sopa rala
Sopro fraco esfria o caldo
Fôlego ralo
Por um fio
Visita
Mão quente em leito frio
Medo, morte, leito frio
Mão amiga, leito estranho
Morte amiga
Consolo
imagen tirada do blog "http://chargesprotestantes.blogspot.com/"
Renan Ramalho
09.05.09
Dedicado a uma amiga especial, Nathalia Potiguara,
que um dia me confessou ter medo da morte.
Espero que ao ler essas palavras ela
possoa relembrar certas promessas eternas.
frio leito
dor aguda
me acusa
mortal!
do que me curo?
fina lágrima
finda a dor
fim da luta
doce paz....
ssagem
disperso me despeço
desperto em um novo espaço
o especular se faz inútil
tateio o inescrutável
agora sou
o tempo já não é
um novo nascimento
cores e profundidades
do que antes eram sombras
a eternidade em suave brisa
do que me curo?
a cura da eterna saudade
os braços do Pai
paz real
indizível
imortal
Natal, 02.09
Renan Ramalho
Renan RamalhoNatal, 02.01.2009
Atrás do cansaço
Do maço que me console
Um traço que não complique
Um braço...
Um tempo que não se acabe
Tecendo uns terços de recomeços
Iminentes fins trágicos
Se for prazer
Que seja logo
Um poema
Que seja rápido
Deixe-me ileso
Leso
Tira o disco do Odair
Eu me vejo
Meios célebres de fins funestos
Máscaras alegres
Euforia
Alforria da razão
Alegria alcoólica
Intervalos da consciência
Aterradora!
Enterrada por enquanto
Nada resolvido
Tempo razoável
Noite divertida.
Até mais. Beijos!
Renan Ramalho
09.11.08
Um dia me disseram, de maneira simples,
mas sabiamente, que o passado é como um
retrovisor. Se olhamos só pra ele, batemos de cara.
Se não olhamos, cometemos barbeiragens.
Tão perto,
ansiedade.
Agora,
a vontade.
Longe,
A saudade.
O homem,
o tempo
Desalento dos dias
Descanso das noites
Passado
repassado antes de cada sono
Relembrado
O velho, ressofrido
Recorrido
Lampejos de sabedoria
Retrovisor
O primeiro beijo açucarado
A primeira lágrima rolada
Repaginada
Reformulada em sonetos fiéis
Reinventado
Reduzido
Imaginado
Memória
Renan Ramalho
29.09.08
"Todo dia eu só pensoEm poder parar Meio-dia eu só pensoEm dizer nãoDepois penso na vidaPrá levarE me calo com a bocaDe feijão..."
Chico Buarque
No canto do quarto, na frente da tela
Tic tac denuncia o tempo imperioso
Mais uma noite, mais um fim de dia
Tic tac e nada se fez
Mais uma madrugada, mais um descanso
Amanhã
Um dia outra vez
Novamente o mundo à espera
Os olhares à espreita
Um dia ocupando a vista
Dores ocupando corações rotineiros
Mais um dia para ganhar a vida
Perder a alma
A paciência
Um dia educado
Comportado
Comprimido
Oprimido
Luz, câmera, ação!
Mascaras do cotidiano
Os sorrisos de balconistas
Os tapas educados
As conveniências
A ausência de sentido, de fé, de verdade...
Disso se alimenta a cidade
Produção
Movimento
Aumento
Descontento
Desalento
Novamente solidão
LUZ!
No escuro se é verdadeiro
O que resta alem das coisas casuais?
CÂMERA!
Longe dos olhos se é por si mesmo
O que resta alem das honras, das pompas, dos egos...
ACÃO!
No silencio se pensa
Dispensa qualquer mascara de conveniência
Vê quem se é
Se gosta?
“E se acabou no chão feito um pacote flácidoAgonizou no meio do passeio públicoMorreu na contramão atrapalhando o tráfego.”
Chico Buarque
A fumaça negra no cano de escape
Ruas, prédios multicoloridos
A chuva densa embaça os vidros
A vida passa sem causar alarde
Sapatos gastos, rua, condução
Um indigente na contramão
Contra o corpo quente, bate, estende ao chão
Quebra-mola humano, humana ondulação
Amontoado de músculo, carne e osso
Desagradável, estética de mau gosto
Ambulantes olham para o lado oposto
Interessante! tem carne e osso exposto
O público cerca o grande espetáculo
A desgraça de um pobre infeliz
Alegra o instinto sádico coletivo
Lembra que a vida é vida por um triz
No jornal as cenas do ocorrido
O indigente mal socorrido
Violência, adrenalina
Audiência, carnificina
Concreto, ferro, borracha, latão
Busco a rima adequada
Por conveniência rimaria com paixão
Mas foge totalmente ao propósito da cidade
Foge ao propósito de toda velocidade, aparência ou pragmatismo idolatrados
Urgência dos bancos e das informações
Das informações dos bancos de dados
Dos dados: “mais um indigente morto”
Gente vira número, objeto, espetáculo, obstáculo...
E isso não tem nem graça, nem rima, nem métrica
Me desculpem.
Cidade cria vontade
Gente cria função
Renan Ramalho
2008
FELIZ
Uma frase guardada por anos
Atormentou-me por todo esse tempo
Minha memória desconhecia
Mas se expandia, feria
Meus demônios
Meus medos
Um inimigo próximo, desconhecido
Eu os criei. Eles me dominavam
Por toda cautela, não tenho cicatrizes
Imaginava não ter feridas
Se as marcas ensinam...
...a pele aberta atemoriza, sensibiliza
MEDO!
Tristeza... finjo feliz... tristeza
Intempérie... tic tac verdade tic tac... conforto.
A ilusão adia o processo
Um grito!...
...rouco, empoeirado e espremido é a melhor solução