terça-feira, 5 de maio de 2009

Boa morte

Dedicado a uma amiga especial, Nathalia Potiguara,

que um dia me confessou ter medo da morte.

Espero que ao ler essas palavras ela

possoa relembrar certas promessas eternas.


frio leito

dor aguda

me acusa

mortal!


do que me curo?


fina lágrima

finda a dor

fim da luta

doce paz....

ssagem


disperso me despeço

desperto em um novo espaço

o especular se faz inútil

tateio o inescrutável


agora sou

o tempo já não é


um novo nascimento

cores e profundidades

do que antes eram sombras

a eternidade em suave brisa


do que me curo?

a cura da eterna saudade


os braços do Pai

paz real

indizível

imortal


Natal, 02.09
Renan Ramalho


sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

a palavra

chega!
a poesia em inanição
não chega

no coração cego

palavras desafiadoras
desafiadas
cegas
por frieza enferrujam

os sentimentos cortantes
desconcertantes procuram palavras
as palavras nem sempre chegam
por fervura emudecem

até onde pode ir a palavra?

Renan Ramalho
Natal, 02.01.2009

domingo, 9 de novembro de 2008

Euforia

Atrás do cansaço

Do maço que me console

Um traço que não complique

Um braço...


Um tempo que não se acabe

Tecendo uns terços de recomeços

Iminentes fins trágicos


Se for prazer

Que seja logo

Um poema

Que seja rápido

Deixe-me ileso

Leso


Tira o disco do Odair

Eu me vejo


Meios célebres de fins funestos

Máscaras alegres


Euforia

Alforria da razão

Alegria alcoólica

Intervalos da consciência

Aterradora!

Enterrada por enquanto


Nada resolvido

Tempo razoável


Noite divertida.

Até mais. Beijos!

Renan Ramalho
09.11.08


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Retrovisor


Um dia me disseram, de maneira simples,

mas sabiamente, que o passado é como um

retrovisor. Se olhamos só pra ele, batemos de cara.

Se não olhamos, cometemos barbeiragens.



Tão perto,

ansiedade.

Agora,

a vontade.

Longe,

A saudade.


O homem,

o tempo

Desalento dos dias

Descanso das noites


Passado

repassado antes de cada sono

Relembrado

O velho, ressofrido

Uma nova insônia


Recorrido

Lampejos de sabedoria

Retrovisor


O primeiro beijo açucarado

A primeira lágrima rolada

Repaginada

Reformulada em sonetos fiéis


Reinventado

Reduzido

Imaginado

Memória

Renan Ramalho

29.09.08


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Luz, câmera, cotidiano

"Todo dia eu só penso
Em poder parar Meio-dia eu só penso
Em dizer não
Depois penso na vidaPrá levar
E me calo com a bocaDe feijão..."

Chico Buarque


No canto do quarto, na frente da tela
Tic tac denuncia o tempo imperioso
Mais uma noite, mais um fim de dia
Tic tac e nada se fez

Mais uma madrugada, mais um descanso
Amanhã

Um dia outra vez

Novamente o mundo à espera

Os olhares à espreita

Um dia ocupando a vista
Dores ocupando corações rotineiros

Mais um dia para ganhar a vida
Perder a alma
A paciência


Um dia educado
Comportado
Comprimido
Oprimido


Luz, câmera, ação!

Mascaras do cotidiano
Os sorrisos de balconistas
Os tapas educados
As conveniências
A ausência de sentido, de fé, de verdade...

Disso se alimenta a cidade
Produção
Movimento
Aumento
Descontento
Desalento
Novamente solidão


LUZ!
No escuro se é verdadeiro
O que resta alem das coisas casuais?


CÂMERA!

Longe dos olhos se é por si mesmo
O que resta alem das honras, das pompas, dos egos...


ACÃO!

No silencio se pensa

Dispensa qualquer mascara de conveniência
Vê quem se é

Se gosta?


Novamente solidão.
Tantas cartas
Somente um curinga.


Renan Ramalho 01.09.08

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Objeto, espetáculo, obstáculo

“E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.”
Chico Buarque


A fumaça negra no cano de escape

Ruas, prédios multicoloridos

A chuva densa embaça os vidros

A vida passa sem causar alarde


Sapatos gastos, rua, condução

Um indigente na contramão

Contra o corpo quente, bate, estende ao chão

Quebra-mola humano, humana ondulação


Amontoado de músculo, carne e osso

Desagradável, estética de mau gosto

Ambulantes olham para o lado oposto

Interessante! tem carne e osso exposto


O público cerca o grande espetáculo

A desgraça de um pobre infeliz

Alegra o instinto sádico coletivo

Lembra que a vida é vida por um triz


No jornal as cenas do ocorrido

O indigente mal socorrido

Violência, adrenalina

Audiência, carnificina


Concreto, ferro, borracha, latão

Busco a rima adequada

Por conveniência rimaria com paixão

Mas foge totalmente ao propósito da cidade

Foge ao propósito de toda velocidade, aparência ou pragmatismo idolatrados

Urgência dos bancos e das informações

Das informações dos bancos de dados

Dos dados: “mais um indigente morto”

Gente vira número, objeto, espetáculo, obstáculo...

E isso não tem nem graça, nem rima, nem métrica

Me desculpem.


Cidade cria vontade

Gente cria função

Renan Ramalho

2008

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sorriso educado

Ainda engatinhando, inspirado pela leitura das poesias do blog de Rodolfo (http://www.tengolengo.blogspot.com/), pouco conhecido por mim, mas já admirado; tento utilizar elementos da poesia concreta. Sim e aproveitando, Rodolfo é um pouco culpado por isso tudo, já que foi ele que apresentou a poesia a Flávio, que apresentou a mim... desde então decidi chamar de poesia o que antes pra mim eram letras de novas músicas

"A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
e tudo se acabar na quarta feira"


Tom Jobim

FELIZ


Uma frase guardada por anos

Atormentou-me por todo esse tempo

Minha memória desconhecia

Mas se expandia, feria


Meus demônios

Meus medos

Um inimigo próximo, desconhecido

Eu os criei. Eles me dominavam


Por toda cautela, não tenho cicatrizes

Imaginava não ter feridas

Se as marcas ensinam...


...a pele aberta atemoriza, sensibiliza

MEDO!


Tristeza... finjo feliz... tristeza

Intempérie... tic tac verdade tic tac... conforto.

A ilusão adia o processo


Um grito!...

...rouco, empoeirado e espremido é a melhor solução

Renan Ramalho. 2007/2008